[Arte em tempos de pandemia] “A pandemia me trouxe mais saúde e espiritualidade”, conta empresário

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Fotos: acervo pessoal

A pandemia virou de cabeça para baixo a já agitada vida do empreendedor Guilherme Maciel, 48 anos. Proprietário da “Burguiles”, empresa do ramo de alimentação, Guilherme é daquele tipo de pessoa avesso à “mesmice”, como ele mesmo se define. Fez faculdade de Administração de Empresas, posteriormente Turismo, e se encontrou definitivamente na gastronomia, trabalhando como cozinheiro. Além disso, cursou “Gênero e Diversidade” e “Gastronomia”, ambos na Universidade Federal da Bahia (Ufba).

“Sou uma pessoa dinâmica. Gosto de correr atrás. Sou um realizador”, explica. Nascido em Salvador, Bahia, Guilherme foi passou parte da infância na região da caatinga, entre Jaguarari e Uauá, onde se apaixonou pela cultura da caatinga. O espírito aventureiro fez com que o então funcionário da Varig abrisse mão do emprego e fosse se aventurar em terras americanas.  

“Com dois anos de Varig decidi tirar umas férias atrasadas e fui para o Havaí, na Ilha de Maui. Tinha uns primos que moravam lá. Fui para passar dois meses e acabei ficando em definitivo. Pedi as contas via procuração e fiquei morando lá”, conta.

Foi durante o período de férias em solo havaino, mais precisamente no ano de 1998 , que Maciel teve o primeiro contato com o seu atual ofício, que é trabalhar como  cozinheiro : “Até por que chef de cozinha é uma condição, não é profissão. É uma função que você exerce durante um determinado tempo, em um determinado lugar. Na verdade, eu enxerguei que poderia ter uma mobilidade boa desempenhando essa função. Através da gastronomia rodei os Estado Unidos e Canadá. Morei no Havaí, em Los Angeles, Toronto (Canadá), Orlando, Flórida, Nova Iorque, Boston.”

Na BurGuiles

Em 2004, já casado, o regresso ao Brasil: 

“Voltei para o Brasil em 2004 já com minha atual companheira, Mariana, que conheci no início dos anos 2000. Moramos juntos em algumas dessas cidades americanas. Hoje, temos dois filhos. Quando voltamos para o Brasil fomos Ribeirão Preto, onde passamos pouco mais de dois anos. Em 2007 nos mudamos para Salvador. Nesse período atuei fazendo consultorias, além de receptivo turístico. Em meados de 2015, quando estava na Lemos Passos fui convidado Maciel para participar do projeto “Feira da Cidade” vendendo frango naquelas televisões de cachorro”.

“Já tinha essa experiencia… Três meses depois o frango saiu de cena e focamos no hamburguer. Era o início da onda de hamburguer em Salvador. Continuamos então fazendo a feira, fora alguns eventos como camarotes e carnaval. Em 1º de janeiro de 2017 abrimos a nossa loja aqui na rua Amazonas, a BurGuiles. Já tivemos casa em Feira de Santa e Lauro, mas infelizmente tivemos que fechar”, completa.

Na decoração e customização da BurGuiles,  Guilherme começou a dar vazão à sua veia artística. Mas foi a questão espiritual, através do seu regresso ao candomblé, que despertaram de forma latente a questão da arte na vida do empresário. Somado a isso a pandemia e o chamado “novo normal”.

“A BurGuiles sempre esteve ligado à arte de rua, comida de rua… Eu estava afastado do candomblé há muitos anos…Um amigo me levou de volta e a coisa veio parecendo um maremoto. Parecia que Ogum estava encarnado em mim, montado em minhas costas, me guiando pelos ferros velhos. Fora as obrigações de casa e profissional, eu achava tempo para ir no ferro velho dar uma fuçada… Viajar nas coisas, sentir a energia do ferro… Comecei então a ter insights e achar que poderia aprender um novo ofício. Isso foi em outubro o novembro do ano passado. A pandemia acabou por acelerar algumas coisas. A pandemia me trouxe mais saúde e espiritualidade.”.

Entre um hamburguer ou uma atividade doméstica, as esculturas de orixás foram então surgindo meio que espontaneamente:

“É sentimento. É como eu acordo…Tem dia que eu não estou para nada, agora tem dia que estou para criar prato novo…. Tem dias que estou mais receptivo às energias…Criar uma arte em cima de algo que alguém falou. Sou muito ligado à música. Escuto muita coisa e viajo. Uso maconha diariamente, então é uma coisa que me eleva o espírito de uma forma ou de outra. Gosto também de conhecer a vida dos lugares para poder ter isso como experiência e depois transportar para as pessoas em forma de comida.  A inspiração vem também do que as pessoas dizem e pensam. Vem de energia, de sentimento. Vem também do olhar, de minha cabeça de e de cenas que já vivi…Às vezes estou no ferro e vejo algumas peças, peças soltas que podem servir para alguma coisa lá na frente. Muitas vezes já vou ao ferro velho já sabendo o que é que eu quero. Estou terminando um Exu, depois vou fazer um Ogum, uma Iemanjá, um Oxaguiã. Um Ossain, um Oxóssi e por aí vaí…Inclusive, vou pedir que consulte os búzios para saber como vou decidir isso daí. Mas também terão muitas peças de protesto, intervenção…”

Momento de criação

“Eu tenho visões… Quando eu quero fazer uma coisa e que estou sonhando com aquilo chega um determinado momento do sonho que eu tenho a visão de como vai ser tudo. Tanto para o BurGuiles quanto para minhas esculturas. Eu sabia desde o início como seria meu Exú”, continuou o “ferreiro”, como ele mesmo se define.

“Eu quero trabalhar com arte, com intervenções artísticas que venham a reclamar direitos do homem, do ser humano. Quero mostrar como podemos reutilizar as coisas e renascer do zero. Esse é um sentimento meu e vou externar isso em forma de arte. Escolhi o ferro, que veio para ficar em minha vida. Não deixarei de ser cozinheiro, mas vou ser ferreiro também. Tenho muita ideia”, finaliza.

Laroiê, Guilherme.

“Exú Bará”

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